Algo que, na prática, percebi sobre ser chato, crítico e reclamão é que todo chato sempre vai encontrar mais motivos para reclamar de qualquer coisa, sempre. Um dia pode acontecer algum tipo de chuva divina mágica que conserta todos os defeitos do mundo e mesmo assim o chato vai dizer “Agora tudo ficou muito perfeito, tá uma porcaria.” É chato ser chato.

Menos para o chato, é claro.

Para ele, a chatice sempre será matéria-prima para a vida. Reclamar torna o ar mais leve e lubrifica a alma.

Então aproveito que não posto aqui faz tempo para voltar já sendo chato e reclamando de algo que tem me incomodado, pra variar.

Veja, meu caro, recentemente percebi mais uma coisa óbvia na vida que está aí o tempo todo e que possui diferentes nomes. Essa coisa é o que, em inglês, se chama de bullshit. Em uma tradução branda significa “bobagem”, mas o sentido real está mais próximo de “lero-lero” ou “merda” mesmo, com o perdão da palavra. Gosto de bullshit porque esse termo serve melhor para caracterizar o que sinto diante da maioria das coisas que as pessoas falam repetidamente, inclusive eu mesmo. Ou seja, os discursos.

Não estou falando dos discursos em que você tem de se levantar e, suando, ler um papel com palavras supostamente inspiradoras para um grupo de pessoas enquanto gagueja e se pergunta como você foi se meter nessa. Me refiro ao discurso do dia-a-dia, das coisas que você fala para os seus próximos e também para os supostos amigos na internet. Seria o que, em palavras bonitinhas, citando a nossa querida Wikipedia, é “algo que sustenta e ao mesmo tempo é sustentado pela ideologia de um grupo ou instituição social”.

Estamos o tempo todo sendo bombardeados por esses discursos. Ligamos a TV, lá tem ideologia. Abrimos a internet e la está alguém tentando lhe vender uma ideia furada. Lemos uma notícia e, analisando, percebemos que a imparcialidade do jornalista está apenas no campo da utopia enquanto encontramos traços de suas opiniões e ideologias por trás de cada palavra. E, para quem pensa bem e gosta de analisar a fundo, encontrando as falhas nas ideias e ideologias de todos, fica evidente que praticamente todo discurso, em sua essência, é bullshit. É um tipo de lero-lero que querem que você engula.

Tá, e daí? Você me pergunta. Afinal, você provavelmente tem uma boa noção de como funcionam ideologias, né?

Bom, o fato que me impressiona é como pessoas como justamente você, que se acham esclarecidas pra caramba, se pegam engolindo e vendendo cada bullshit ridículo que chega a ser vergonhoso. Parece que todo mundo que se sente inteligente possui algum tipo de peneira furada no campo das ideias que os habilita a filtrar milhões de babozeiras reais por um lado e por outro deixar passar grossas porções de bullshit.

O quê???? Como assim, meu? Tá doido, bicho?

Vamos aos exemplos então. Vou separar alguns desses bullshits que eu me lembrar aqui por categorias. Nelas acabei misturando alguns discursos que não estão errados em si, mas na maneira como as pessoas lidam com eles. Enfim, à lista (reparem que me empolguei):

 

Religião e ciência:

– Ateus, daquele tipo que adoram opinar e criticar as religiões, que ficam usando trechos da bíblia ou qualquer texto considerado sagrado contra os religiosos da mesma maneira inconsistente e ingênua que os próprios religiosos fanáticos o fazem.

– Religiosos que querem convencer os outros a aceitarem as suas crenças e para isso usam evidências altamente subjetivas como se fossem provas concretas e racionais. Exemplo: “O sol brilha no céu, tudo é lindo, você respira e isso tudo prova que Deus existe.”

– Religiosos que criticam a ciência e ao mesmo tempo tentam usá-la, de maneira forçada e distorcida, para provar suas crenças religiosas.

– Pregar o amor universal, porém odiar quem é diferente.

– Pregar que se viva com ética em vez de ter religião, porém agir com preconceito e ficar desmoralizando os religiosos.

– Assumir que acreditar na ciência é, naturalmente, negar qualquer religião ou crença em uma religiosidade.

 

Empresas:

– Pessoas que se acham esclarecidas e acreditam na “meritocracia” e acabam caindo em esquemas de pirâmide, de tão cegas que estão por “conquistar a vida com o próprio mérito”.

– Fingir que “vestiu a camisa” da empresa para se convencer de que está trabalhando em um bom lugar, ou por causa de salário, benefícios e etc e, na primeira oportunidade, mudar de emprego.

– Empresas que vendem benefícios desnecessários como se fossem coisas boas, ou distorcendo os fatos para o produto parecer uma coisa boa. Exemplo: alimentos hipercalóricos sendo vendidos como “matadores de fome”.

– A ideia de que ações de ética questionável, porém dentro da lei, são aceitáveis para o consumidor. Exemplo: vender produtos por um preço X e, nas “letras miúdas”, acrescentar diversas taxas.

– Aceitar que a empresa dê benefícios supérfluos como se eles justificassem trabalhar longas horas (às vezes sem ganhar a mais por horas extras) e/ou em más condições. Ou, pior, aceitar trabalhar horas não-pagas a mais somente pelo glamour de trabalhar em tal empresa.

 

Política e sociedade:

– Repetir afirmações como “Bandido bom é bandido morto” e qualquer outra generalização, inclusive muitas vezes considerando os próprios atos ilícitos que comete como se não fossem “bandidagem”.

– Defender um partido como se esse fosse time de futebol, ou defender todas as políticas de um partido quando na verdade apoia apenas algumas delas, fazendo isso somente para se opor aos defensores dos outros partidos.

– Defender capitalismo, marxismo ou qualquer “ismo” sem querer enxergar que as coisas não são tão preto-no-branco assim.

– Defender cegamente grupos sociais menos favorecidos, enxergando preconceito onde não há e distorcendo fatos apenas para ser reconhecido como “paladino da justiça”.

– Criticar qualquer medida de inclusão a grupos sociais menos favorecidos ignorando completamente o conceito de isonomia.

– Pedir por “justiça” sem evidências e/ou sem entender a diferença entre lei e senso de justiça.

– Reclamar da manipulação da mídia e ainda assim se manter informado através de somente uma mídia (um canal de TV, uma revista, um jornal, etc) que reforce somente uma visão política e/ou que favoreça um grupo específico de pessoas e, enfim, que distorça os fatos de maneira geral para mostrar a sua verdade.

– “Não tenho preconceito, mas…” seguido por uma crítica que demonstra sim preconceito.

– Criticar músicas, filmes e livros como se fossem “de baixo nível” apenas porque não se identifica com o estilo.

– Ficar dizendo que antigamente, “ah, na minha época”, era tudo melhor e ignorar todos os problemas que haviam naquela época.

– Ficar dizendo “vivemos na época dos ofendidos” justamente por ter se ofendido com algo em vez de não se importar.

– Pregar contra a futilidade e ainda assim gastar mais dinheiro em objetos e bens para mostrar aos demais que possui dinheiro para gastar com tais coisas.

– Reclamar que as pessoas não estudam e não leem, sem se preocupar em dar o exemplo por si mesmo.

– Exigir força de vontade e disciplina das pessoas somente para aquilo que a pessoa acha importante. Exemplo: Querer que todos tenham a mesma vontade de praticar esportes que você tem, e ignorar que elas também podem ter disciplina para outras coisas, como trabalhar, estudar e etc.

 

Chega, né?

Ok, talvez eu tenha sido um pouco abrangente demais e ido um pouco longe demais nessa lista, mas, enfim, é a minha visão de mundo. O ponto é: E aí? Se ofendeu? Se identificou com algum item? Provavelmente sim, e olha que esses são apenas alguns ínfimos exemplos em um oceano de incongruências diversas. Se você se sentiu assim, tudo bem, você tem todo o direito do mundo de questionar os meus critérios em discernir o que é bullshit do que não é. Apenas não deixe de se questionar se essa sua verdade é ou não é um discurso pronto talhado em pedra que serve como água para engolir abaixo os problemas da vida – ou pior – se não é uma forma de replicar preconceitos e hipocrisias.

Voltando ao conceito da peneira furada no campo das ideias, me parece que é a própria necessidade que as pessoas têm de se sentirem seguras que as tornam tão suscetíveis a bullshits poderosos. Nada deixa uma pessoa mais segura que uma muleta de ideologias prontas e inabaláveis, que servem para explicar o mundo. Consequentemente, isso traz a ilusão de esclarecimento mesmo com pouco conhecimento e sabedoria. Não é à toa que vemos tanta gente defendendo conceitos com unhas e dentes sem pesquisarem a fundo nem refletirem sobre o que estão fazendo e ainda assim se achando sábias e entendidas.

Aliás, eu mesmo que os critico também não estou livre dos bullshits. Vivo falando coisas como se fossem regras absolutas e logo em seguida quebro a cara ao perceber que estava errado. Isso, quando percebo.

Por isso, você, pessoa, se leu até aqui, (meus parabéns, por sinal) por favor pense muito bem nas suas crenças, frases-prontas cheias de generalizações, convicções científicas, políticas, etc. Enfim, os discursos que você adora reproduzir e jogar na cara dos outros para mostrar que é inteligente, diferente e que possui opiniões. Pergunte-se se você não está contribuindo pra perpetuar mentiras e a ignorância sob uma falsa roupagem de esclarecimento. Procure sempre embasamento teórico de diferentes fontes. Procure entender as ideias opositoras não como se fossem afrontas, mas pensamentos que os outros têm direito a ter e contra os quais se pode argumentar com calma, sempre com calma. E, sempre, mantenha a mente aberta o suficiente para duvidar até das suas fontes e evidências das suas verdades. Vai que um dia você tem um estalo e percebe que estava errado sobre algo! Já imaginou?

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