Quanto mais eu leio e assisto coisas, mais entro em contato com diferentes narrativas passadas em realidades diversas, sejam estas extremamente distintas, como em filmes de fantasia e ficção científica, ou apenas leves modificações e adaptações da nossa realidade, como é o caso da maioria das outras obras existentes (novelas, romances históricos, e etc, costumam se passar em nosso mundo, às vezes com pequenos detalhes mudados, como a própria presença de personagens fictícios ou a consequência do que eles fazem). E diante de tantas realidades, linhas do tempo, possibilidades e universos únicos, eu me pergunto: O que torna cada um desses contextos tão interessantes?

É claro que isso é uma pergunta complicada. Digo, se eu falar que amo um determinado livro, posso estar me referindo à história, à narrativa ou aos personagens, e não especificamente ao contexto em que eles estão inseridos. Mas e se não levarmos em consideração esses fatores e nos focarmos unicamente nos universos? Por que uns são mais interessantes do que outros?

Isso, obviamente, sempre será uma questão pessoal. A afinidade de cada um é que será o fator determinante. Há quem prefira contextos de ficção científica futurísticos, ou universos fantasiosos no estilo Senhor dos Aneis. Há quem goste de mundos distópicos baseados em um passado ou futuro próximo, ou mesmo quem ame histórias cem por cento no momento presente e, de preferência, em um país específico (e inclusive em um estilo específico, como os amantes de livros policiais e etc.). Mas apenas o fato de uma história se situar em um contexto do qual a pessoa goste é fundamental para tornar o universo ficcional interessante?

É óbvio que não. Um universo ficcional, para se tornar fascinante, ou até mais interessante que a própria história na qual ele se situa, precisa ser extremamente rico e bem construído. Ele tem de se formar de maneira clara – ou instigante – na cabeça do leitor, a ponto de ele querer saber mais sobre aquele mundo, ou conseguir imaginá-lo com extrema clareza. O leitor/espectador não precisa querer viver naquele universo (não creio que nenhum fã de histórias pós-apocalípticas queira realmente viver nesses mundos), mas precisa sentir o peso que é morar nele, o poder que aquele mundo tem sobre os personagens.

E para diferenciar um universo ficcional de outro, estes precisam ter personalidade. Não basta ser apenas um mundo medieval fantástico, ele precisa de raças, ambientações, eventos e histórias antigas que deem peso àquele mundo. Não basta ser apenas uma leve modificação da nossa realidade; esse “como” o mundo é diferente do real precisa ser interessante, ter detalhes macabros, ou divertidos, ou engraçados, ou que simplesmente acrescentem mais ao contexto da história.

game of thronesPara exemplificar isso eu quero citar duas realidades ficcionais que eu gosto, mas que são bem distintas: ambas são riquíssimas e interessantes, mas só uma possui uma boa história. Uma delas é o universo das Crônicas de Gelo e Fogo, mais conhecida como “Game of Thrones”. Essa obra possui um universo com extrema personalidade. São diversas famílias, personagens que não acabam mais, locações vastas, religiões malucas, com uma realidade extremamente cruel misturada com um elemento mágico cada vez mais presente no decorrer da história. O universo é tão rico que passa a impressão de que a história, que se passa pelo ponto de vista de vários personagens, é sobre o continente de Westeros – o contexto principal –, e não sobre os personagens. Tudo isso graças à minúcia do autor, George R. R. Martin, que não dispensa palavras para trabalhar bem cada detalhe das cidades, pessoas e culturas ali apresentadas, resultando em livros extensos até mais do que deveriam.

A outra realidade que gosto é a da série de jogos – e agora também de livros – Assassin’s Creed. Nesses jogos nos deparamos com uma antiga disputa entre duas facções (templários e assassinos) ao longo da história da humanidade, repleta de traições e aventuras envolvendo grandes eventos históricos. E, por trás disso, há outra antiga disputa entre seres que antecederam a raça humana, que seriam como (ou são mesmo, não me lembro) deuses. Os jogos se passam em determinados períodos do passado, pelo ponto de vista de integrantes da facção dos assassinos. Enquanto isso, no futuro, essas memórias são acessadas por uma máquina capaz de decifrar a memória genética dos descendentes dos assassinos do passado. Sim, para quem não conhece, parece bem confuso à princípio. Enfim, o fato é que essa é uma série de jogos que criou um universo instigante, envolvendo passado, futuro, conspiração histórica e uma realidade maior que é aos poucos desvendada. Mas, no terceiro jogo da série, a história principal foi por água abaixo, na minha opinião e na da maioria dos críticos (e o quarto só reforçou isso, se focando somente em uma das vidas passadas e desenvolvendo toscamente a história maior, que nem precisava ser um jogo da série). Parte da magia que tornava o desvendar da realidade maior instigante foi quebrada graças a um final fraco e claramente apressado.

No entanto isso não foi o suficiente para acabar por completo com o encanto dessa série de jogos. Por quê? Por causa da riqueza desse universo! Mesmo que a Ubisoft (a empresa que faz esses jogos) parasse de lançar sequências de Assassin’s Creed, seria um desperdício de universo narrativo. Afinal, nele ainda podem ser desenvolvidas milhares de histórias boas.

Stephen king livrosUm autor que gosto muito e que sabe como criar um universo rico, com personalidade, é o Stephen King. Até quando ele é desnecessariamente descritivo acaba acrescentando detalhes que, mesmo que aparentemente inúteis, enriquecem tanto cada obra dele quanto todo o seu universo de livros. São pequenas coisas, desde o nome de produtos que os personagens usam, até ruas e cidades – ou até mesmo os próprios personagens – que permeiam suas obras e de vez em quando reaparecem em outras. Quando você menos percebe ele fez uma construção tão forte na sua cabeça que você sente falta daquele universo depois. E isso mesmo em livros que se passam em uma realidade bastante parecida com a nossa, transformada em extraordinária graças à maneira como ele a enriquece ao longo da história.

Isso não quer dizer que, para um universo ter uma boa personalidade ele precise ser hiper detalhado, se desenvolvendo por uma longa série de livros, episódios, filmes e etc. Os detalhes e descrições são um aspecto. Mas um universo ficcional interessante pode ser apenas bastante original, ou levemente modificado em relação aos outros universos ficcionais similares. Por exemplo, há muitas histórias que se passam em um mundo pós-apocalíptico, mas só conheço uma que se foque em uma humanidade sobrevivendo em linhas de metrô, como é na obra Metrô 2033, do jornalista e escritor russo Dmitriy Glukhovskiy. O livro tem como foco muito mais a jornada do protagonista que a construção do contexto, e mesmo assim cria um universo rico e único.

Todavia, nem sempre o universo ficcional precisa ser extremamente inovador ou ter uma forte personalidade para instigar as pessoas. Há, por exemplo, quem aprecie o mundo genérico de zumbis de Walking Dead, ou qualquer história de vampiros simplesmente por ser um contexto de vampiros. Mas aí já é muito uma questão de gosto pessoal. (E a visão de que tais universos são “genéricos” também é mera opinião minha.)

De modo geral, o trabalho do escritor, do roteirista, dos produtores, ou narrador, também envolve se focar na construção de uma realidade instigante e coesa, que se torne um complemento forte à história (e, em alguns casos acidentais, até mais memorável do que a mesma). Entretanto, é claro que os personagens e relações humanas são os elementos mais importantes em uma boa narrativa. Lembra-se de Lost? A série que criou tantos mistérios mal-explicados e acabou mudando de ficção-científica para fantasia no final? Eis um belo exemplo da importância de se conseguir manter a coesão na construção do universo ficcional. E, mesmo errando nesse sentido, há quem tenha gostado (ou se convencido a gostar) do final por ele se focar nos personagens, o que também é um exemplo de como as pessoas em geral se prendem mais aos personagens que ao contexto.

Enfim, particularmente gosto do recurso dos detalhes, ambientações e históricos complexos para a composição de cada um dos universos com os quais tenho contato. Mas, para o criador de histórias que tenha receio de criar um universo inteiramente novo e entediar leitores despreparados (e não queira correr riscos com isso, o que não é necessariamente uma coisa ruim), recomendo trabalhar com contextos ficcionais apenas levemente diferentes do nosso ou dos contextos comuns mais utilizados (nos casos de ficção científica e fantasia). E também dentro da sua área de domínio, o que diminui um pouco o trabalho com pesquisa. Apenas lembre-se: o principal é a história e seus personagens.

Mesmo assim recomendo que, quando for escrever, experimente acrescentar alguns pequenos detalhes a mais. Pode ser o nome de coisas, lugares ou objetos, ou até minúcias no plano de fundo que, com o tempo, podem compor parte do seu universo próprio, sendo até uma marca registrada sua como autor.

Bom, mas como eu disse, isso tudo é apenas a minha opinião. Pode ser que o que torne um universo ficcional interessante seja diferente para você, não é mesmo? E então, que me diz a respeito?

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