Todo mundo acha que sabe o que quer, mas quanto mais pessoas eu conheço, mais vejo como ninguém faz ideia do que deseja para a própria vida.

Buscam dinheiro quando querem se sentir realizadas pessoalmente.

Buscam um novo emprego quando querem, na verdade, mudar a si mesmas.

Buscam um relacionamento quando querem se sentir amadas, principalmente por si mesmas.

Gente que realmente sabe o que quer, pelos motivos certos, são a exceção. Exige muito autoconhecimento para entender isso, coisa que temos de menos.

Mas saber o que realmente queremos faz alguma diferença? Todo mundo continua vivendo suas vidas normalmente, o mundo não é um total caos só porque não refletimos sobre nossos desejos e ações 100% do tempo, não é mesmo?

Pois então permita-me contar uma história.

Um gato sai à noite para caçar porque ele gosta disso. É instintivo. Ele segue sua natureza da melhor maneira possível até encontrar sua presa. Satisfeito com a caça, ele retorna ao lar, às vezes até trazendo o animal caçado como oferecimento ao seu mestre, o qual toma um susto ao encontrar um rato morto na porta de sua casa pela manhã.

Agora imagine se o gato fosse uma pessoa. O que ele faria?

A pessoa diria a si mesma que está com fome e quer sair para comer em um restaurante. Talvez ela tente experimentar um restaurante novo e, apesar de haver uma probabilidade alta de ela acabar desistindo e ir nos lugares habituais, acaba indo em um novo lugar. Uma nova comida e um ambiente diferente até acabam sendo agradáveis, não muito diferente do que seria ir comer no mesmo lugar de sempre. A pessoa volta para casa sentindo-se apenas levemente satisfeita. Faltou algo e ela não sabia dizer o que era.

A resposta é simples: o gato sabe o que quer. Ele quer caçar, seguir os seus instintos predatórios. Ponto final. Se o gato fosse um humano “normal” (não um serial killer, por exemplo) isso iria se traduzir em sentir emoções diferentes (pois o ser humano é uma criatura mais complexa), em seguir parte de seus instintos naturais dentro do que é possível socialmente, buscando gratificação. A alimentação é de menos nesse caso. A pessoa quer consumir emoção; esse é o seu equivalente a sair para caçar. Se ela realmente entendesse o que quer de verdade, ir em um restaurante diferente seria opcional. Satisfaria a fome, mas não o desejo por emoção. A pessoa que se conhece faria algo completamente novo: iria em uma peça de teatro, sairia com amigos, faria uma caminhada por um caminho que nunca fez, ou quem sabe até ficaria em casa e leria um livro diferente. Enfim, a pessoa se entregaria ao que o sentimento de “caça” significa para si. É aí que reside a satisfação ao seu desejo por emoção.

O grande problema nas nossas vidas é que na maior parte do tempo ignoramos o “gato” que há em nós e enfiamos os pés pelas mãos. Falhamos em admitir para nós mesmos o que queremos. Não assumimos quais são nossos instintos verdadeiros, mesmo que seja para entender que não são instintos muito bons e que precisam ser lidados com cautela.

Por instintos não falo somente do sentido “besta feroz que habita nosso interior”, mas também de respeitar os desejos de nossos corações, as nossas aspirações naturais. Isso é o que realmente queremos. Não essa camada de racionalização que usamos para cobrir tudo o que queremos fazer de verdade e que no final só serve para nos enrolarmos e frustrarmos.

É claro que ninguém é obrigado a se conhecer plenamente, entender todos os seus instintos, desejos do coração, ambições verdadeiras e etc. Porém entender que eles estão ali e que nos dominam muito mais do que gostamos de admitir, já é um começo.

Entender o que você quer de verdade é trabalhoso. Comece dando o primeiro passo.

Admita que você pode não saber o que realmente deseja tempo todo.

Depois pergunte-se:

O que o gato da nossa história faria se fosse você?

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